Entrevista com um pombo
Um ser considerado desprezível, chamado por muitos de "rato com asa", com os olhos esbugalhados, peito pra fora, patas de galinha, voando baixo, andando pelas ruas e postes, e fazendo suas reuniões de condomínio. Os pombos andam todos desengonçados, a cada passo um rebolado, sempre com o mesmo objetivo: sobreviver.
Kevin rodava o dia inteiro, e quando estava com o seu bando, na maioria das vezes iam para praças, o lugar mais seguro para pombos no século XXI. Tem espaço para todos, sempre tem um idoso com migalhas de pão e o mais importante, não há carros. "Esse é o nosso maior inimigo, essas latas de quatro rodas correm sem respeitar os pedestres. Sim, pedestres. Nós voamos, mas adoramos andar com nossas patas curtas, então somos pedestres sim." Ele desabafa.
Eles estão tão perdidos quanto nós, foram domesticados, usados e descartados, agora vivem as consequências do egoísmo e arrogância do ser humano. Sua autonomia foi tirada e agora vivem das migalhas. Kevin contou com tristeza como muitos dos seus colegas passam dias com fios presos nas patas, outros já as perderam em acidentes. Sem contar inúmeras doenças, que por sua vez não são tratadas, não importa, não são pets.
"O que nos difere tanto dos outros pássaros? Eles são admirados, enquanto nós somos evitados, são 'belezas da natureza' enquanto nós somos nojentos." Indaga. Bom, pelo menos ele não era um pássaro domesticado, ninguém quer criar pombos, já não traz benefícios. Imagina passar a vida em uma gaiola, vendo a liberdade entre as grades, dependendo da boa vontade do humano para colocar a casinha na beira de uma janela e ele poder ver, de longe, um pedaço do céu. Eles têm asas para voar.
"A maioria desses pássaros de lojas já nasceu engaiolado, seus pais não puderam ensiná-los a sobreviver na natureza porque tampouco sabiam. Nós vivemos livres, mas por um preço."
"O preço da dependência, uma falsa liberdade. Desde as histórias mais antigas da minha família, nossa espécie já era dependente dos humanos. Ao menos éramos tratados com um mínimo respeito, tinhamos a missão de servir como mensageiros. Hoje somos rejeitados, atropelados, esmagados."
Ao ser questionado sobre esperança e anseios para o futuro, o pombo não tentou esconder suas baixas expectativas.
“Os humanos já tiveram incontáveis chances de mudar as suas atitudes e não foram bem sucedidos em nenhuma delas. Acho que em algum momento tudo isso vai colapsar, e aí já vai ser tarde demais. Espero que, pelo menos, na próxima vida eu seja respeitado como ser vivo.”
Essa é apenas uma breve história que exemplifica o egoísmo humano. Estamos demasiado confiantes, acreditamos que tudo é nosso, tudo pode ser comprado e que somos superiores às outras espécies. Não é bem assim.



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