Um post ansioso sobre espaço
Em algum momento da nossa vida o espaço era só um conceito físico, podendo ser usado como metáfora.
Ele por si só já é suficiente pra causar uma ansiedade enorme pelo simples fato de que logo na minha vez, ter um espaço exige um investimento altíssimo. O preço do metro quadrado tá mais caro do que nunca, em qualquer lugar do mundo. Hoje as casas não são mais construídas para serem habitadas, elas viraram especulação imobiliária. São para investidores e turistas e cabe ao resto da população trabalhar pra pagar aluguel por toda a vida. Não soa justo. Por que alugar uma casa por 1000 moedas mensais quando eu posso alugar por temporada e ganhar 5x mais? Ou alugar cada quarto da casa por 800 moedas e otimizar o espaço? Sempre buscando mais, sempre buscando lucro. E assim, pouco a pouco, os lugares deixam de estar acessíveis para quem precisa.
Por muito tempo, essa questão com o espaço me gerava uma necessidade de não acumular coisas, precisava que minha vida coubesse em uma mala, porque pelo menos isso eu poderia carregar. Com isso, acabei vendendo muitas coisas como livros, CDs e DVDs, e hoje me bate um certo arrependimento. Troquei os livros pelo Kindle, os CDs pelo Spotify e os DVDs pelo streaming.
De repente, não compramos mais nada, alugamos tudo. E como se não fosse suficiente, continuam surgindo novos serviços e aplicativos oferecendo acesso premium por apenas uma pequena mensalidade. Isolado parece inofensivo, mas logo quase todo o salário está comprometido para pagar parcelas infinitas. Viramos reféns de aluguéis. Se a plataforma decidir tirar aquele álbum do catálogo, ou a série de 15 temporadas que você começou a ver, não há outra opção senão aceitar. Você não comprou aquele produto pra que ele te pertença e esteja disponível a qualquer momento.
Em um mundo de playlists, o álbum perde o sentido. Você monta o albúm como quiser, é só criar uma playlist. Sem considerar a obra criada e idealizada pelo artista. Mas vamos entender que eu não dispenso minhas playlists temáticas, só fiquei pensando como quase nunca escuto um álbum completo. Um álbum que levou anos de trabalho, as músicas nele fazem sentido juntas e naquela ordem. Deixamos de apreciar um álbum como arte e virou só entretenimento. Tem artista que eu só conheço duas músicas porque tocam na minha playlist mix do Spotify e raramente vou futucar pra conhecer o trabalho completo. Sinto falta de ouvir CDs, mas onde ouvir se nem os notebooks vem mais com entrada pra CD? Foi uma pergunta retórica, em um futuro não tão distante, quero ter um cantinho pra tocar música aqui em casa. Não posso nem demorar muito porque só tenho mais dois anos de contrato de aluguel.
Isso tudo e eu ainda nem falei sobre fotos, que ocupam 80% da memória do meu celular e 99% da nuvem. Nuvem que não é nuvem. O que me leva a falar do outro conceito de espaço, um espaço que não existe fisicamente, mas que se você pesquisar um pouquinho, vai descobrir que existe sim.
Compramos um celular com 550gb, que em certo momento deixa de ser suficiente, então compramos espaço na nuvem, mas essa compra é mais um aluguel, pago mensal ou anualmente. Você precisa pagar o resto da vida se quiser ter aquele espaço disponível pra guardar seus arquivos, e nada garante que eles vão estar sempre ali. Se a empresa dona da nuvem desaparecer da noite pro dia, os arquivos também podem sumir.
Até pouco tempo atrás eu pensava que o espaço da nuvem e de coisas armazenadas online (como todo o catálogo do Wikipédia, por exemplo) era metafórico, e que os arquivos ficavam flutuando em algum lugar num campo magnético. Mas na verdade, tudo isso e mais um pouco vai sendo armazenado em um pen drive gigante, também conhecido como data center.
Não vou entrar em detalhes sobre o quanto a crescente quantidade de data centers por causa do uso massivo de inteligência artificial é prejudicial, até porque não sou especialista em nada. O meu ponto é: percebeu como tudo acaba por ocupar um espaço físico? Até o que supostamente é digital, precisa de um lugar. O que vai acontecer quando não tiver mais espaço sobrando? A terra não é expansível, espaço não é renovável, com o passar do tempo ele vai se tornar cada vez mais raro, mais caro.
Em tempos como esse eu gostaria de ser herdeira.
Esse final me matou 🥲
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