Viciados em nostalgia
Estaríamos nós obcecados pelo passado? Quase todo ano um filme de animação ganha sua versão em live-action, remakes e sequências estão cada vez mais frequentes. Como se já não bastasse os incontáveis filmes asiáticos e de língua não-inglesa no qual Hollywood "se inspirou", entre muitas aspas.
Tem um lado meu que gosta de reviver o universo de um filme com uma sequência não planejada originalmente. Recentemente tivemos Sexta-feira Ainda Mais Louca, O Diabo Veste Prada 2 e em breve O Diário da Princesa 3. Também assisti Camp Rock 3 essa semana, mas prefiro não comentar. A nostalgia libera dopamina, e à essa altura todo mundo sabe como a dopamina pode ser confortável. Não tem nada de errado em rever confort movies, relembrar nossa infância e adolescência, mas sempre que vejo uma sequência sendo anunciada, meu outro lado pensa "precisava mesmo?".
Eu nunca imaginei que a moda dos anos 2000 voltaria do jeito que voltou, o que por muito tempo foi visto como brega, hoje é aesthetic. A tendência de hoje é tudo o que foi tendência 20 anos atrás.
Mas não estou aqui pra falar de moda, nem estou dizendo que é necessariamente negativo. Mas o quanto isso afeta a nossa criatividade e habilidade de criar? Qual é o limite da nostalgia? Não tenho a resposta, mas vou tentar organizar meus pensamentos aqui embaixo.
Parece que existe uma necessidade em manter o passado no presente, e aqui eu estou falando exclusivamente no âmbito da reutilização. Reutilizamos personagens que já existem, alongamos uma história que já teve o seu devido final, reciclamos roteiros para refazer um filme com outro atores, outra etnia e/ou da perspectiva de tal diretor(a). Não dei nenhum exemplo, mas tenho certeza você pensou em mais de um filme.
Ao mesmo tempo, lembro do dito popular "nada se cria, tudo se copia", uma vez que não existe nada que já não exista, então tudo o que é criado, é uma junção de coisas e ideias existentes.
O que pode estar por trás desse fenômeno? O objetivo de sugar o máximo de dinheiro possível de uma história, como se estivesse extraindo caldo de cana da cana-de-açúcar? Um indício da diminuição da nossa capacidade e interesse em criar algo novo? De ambos os lados, de quem produz e de quem consome. Porque acredito que a lei da oferta e demanda se aplica aqui, principalmente nessa época em que os consumidores têm voz e as empresas fingem que se importam. Voz forte o suficiente para termos um filme onde o elenco foi montado pela sua base de fãs, o filme em questão é Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita e vai estrear no final desse ano. O filme é baseado em uma série de livros, e quando o elenco foi anunciado eu tive que conferir vinte vezes se era oficial e não um fanmade, porque quase todos os atores selecionados já tinham sido mencionados por fãs, em como se encaixariam perfeitamente naquele personagem.
É bem claro como estamos saudosos, revivendo momentos nas redes sociais e algumas empresas levaram a ideia da humanização muito a sério, e estão ativas engajando por todo lado, como se fossem uma pessoa física. Eles trazem de volta um produto que saiu de linha há anos, após uma chuva de pedidos online, reúnem elencos amados, criam um spin-off de uma série que já teve o seu fim, e ressuscitam personagens para uma continuação tardiamente desnecessária e que, na maioria das vezes, estraga a primeira experiência que tivemos com aquele universo.
Não vou ser hipócrita, sou eternamente grata pelo lançamento de Blood of my Blood, spin-off de Outlander, e The Testaments, spin-off de The Handmaid´s Tale. De certa forma, entendo que nada é Ctrl C + Ctrl V, exceto por CODA, o filme de 2021 que tem o mesmo roteiro do francês La Famille Bélier (2014). Não me conformo até hoje.
Bom, a criatividade precisa ser estimulada, e esse foi um dos motivos que me levou a criar o blog. Sou publicitária, desde a faculdade trabalho com criação e levo pouco mais de um ano sem trabalhar na área. Tempo suficiente pra eu duvidar da minha capacidade de criação. Eu já andava tão acostumada, que todo recesso de fim de ano, quando tudo parava, meus divertidamentes reagiam criando os sonhos mais loucos, sem pé nem cabeça, dignos de roteiro de filme. Eram duas semanas de sonhos intensos, e voltando ao trabalho, tudo voltava ao normal. Era como se meu cérebro precisasse gastar a criatividade acumulada.
Mas existe um comportamento que eu venho notando desde essa época, aproximente cinco anos atrás. A criação de conteúdo cada vez mais foi se acomodando em replicar trends. Depois da invenção da palavra “trend”, nada mais foi copiado. As redes sociais se resumem a uma rolagem infinita de vídeos copiados.
Como se já não bastasse toda essa crise criativa, a inteligência artificial chegou trazendo mais malefícios do que benefícios. Pouco a pouco ela vai tomando mais espaço no nosso dia a dia, se apossando de tarefas simples, mas que integram a nossa autonomia. Precisa fazer uma reclamação por escrito? O chat faz. Um trabalho da escola? O chat resolve. Coisas que uma pesquisa no Google resolveria, agora precisam vir mastigadas e cuspidas, para que o nosso cérebro tenha o mínimo de trabalho possível. Estamos cada vez mais parecidos com os humanos de Wall-E e isso me apavora.
Trago uma solução? Não. Sou a dona da verdade? Muito menos. Mas essa é só uma provocação pra gente continuar pensando e se questionando. Se nada disso faz sentido e eu só falei abobrinha, tudo bem também. Deixe um comentário escrito por você, sem intervenção da IA. Obrigada.

Nem dá pra acreditar quando as pessoas pararam de usar a enciclopédia para utilizar o Google, né? hahaha. Acredito que estamos evoluindo e retrocedendo nas relações humanas. Vi hoje uma matéria na Vogue que estamos vivendo a recessão dos beijos, mesmo que seja mais fácil fazer sexo. Seria o beijo mais íntimo? Falando em Vogue, vou ver o Diabo Veste Prada 2 no streaming...um pouco atrasada, mas espero não me decepcionar.
ResponderExcluiracho que a IA em si não é um problema, sei dos benefícios, mas a forma que ela é usada é o que nos faz retroceder. e depois me diz o que achou do filme!
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